Para quem não os conheça, os famosos "madgermanes" são das poucas vozes de contestação permanente ao governo moçambicano, chegando por vezes a ultrapassar o "politicamente correcto", como no ano passado quando insultaram o Presidente da República em plenas celebrações do dia 1 de Maio, ou ainda quando à uns dias trás, resolveram pura e simplesmente ocupar o edifício da Assembleia da República em Maputo, como mais uma forma de protesto. Gostando-se ou não deles, uma coisa é de se reconhecer neles, não desistem daquilo a que (alegadamente) dizem ter direito. E ponho este alegadamente, só por uma questão de bom-senso, porque pelo que sei, eles realmente têm direito a alguma coisa. Coisa essa que lhes é negada pelo governo moçambicano a.k.a. FRELIMO.
Já vou voltar a falar dos "madgermanes", mas já que falei nessas tais formas de protesto meio que "terceiro-mundistas", lembrei-me ainda de mais uma, também à relativamente pouco tempo atrás, na qual a RENAMO decidiu boicotar uma das sessões da Assembleia da República, tendo para tal levado apitos, batuques e tambores para o meio da sala, e começado ali uma verdadeira discoteca africana. Quem não soubesse que sítio era aquele, certamente que pensaria tratar-se de mais uma exibição da Companhia Nacional de Canto e Dança. Logo choveram críticas à RENAMO, e ao seu comportamento dito "selvático". Lembrei-me disto a propósito destas medidas radicais tomadas pelos "madgermanes", e a verdade é que, embora não concorde muito com estas práticas da democracia em versão moçambicana, por outro lado, não posso deixar de pensar que, quando as coisas não funcionam como deveriam funcionar, há que chegar a extremos (sem exageros obviamente) para que elas funcionem ou, pelo menos, para que quem deveria fazê-las funcionar, perceba que as pessoas não são burras, e que a paciência tem limites, e o descontentamento existe. Ou seja, não é lá muito "bonito" saber que a RENAMO boicota sessões da Assembleia da República, ou que os "madgermanes", invadem a Assembleia da República como forma de protesto. Mas, se estes agem deste modo, é porque fica difícil comunicar com quem detém o poder, e se estes últimos transpiram poder e arrogância, então não vejo, de facto, alternativas para poder vincar posições, ou reivindicar o que quer que seja. Não é bonito, mas se calhar é mais eficaz.
Mas voltando aos "madgermanes", estes são regressados da ex-RDA, país onde trabalharam durante vários anos, ao abrigo dos vários acordos de cooperação que Moçambique tinha, com vários países socialistas. Caido o muro de Berlim, os "madgermanes" voltaram para Moçambique (e não eram poucos, mais de 10 mil se não estou em erro), e deveriam receber uma quantia referente ao seguro social, para o qual todos eles descontaram enquanto trabalharam na ex-RDA.
E aqui é que começa o problema. Desde que eles voltaram para Moçambique, que travam esta luta com o governo, pois no início o governo alegava que estes não tinham direito a dinheiro nenhum, mas depois quando se provou que isto não é verdade, a FRELIMO muda o disco, e aceita pagar, mas pelos vistos com valores muito aquém dos devidos.
Daí que, esta guerra entre os "madgermanes" e a FRELIMO se desenrole à vários anos.
A última notícia agora, depois desta invasão da Assembleia da República, é que o próprio presidente Chissano, ordenou ao governo para que resolva as reivindicações dos "madgermanes". Ficamos à espera, a ver se finalmente este assunto será resolvido.