6/10/2004

O mal menor

Excerto de uma entrevista ao "Público", do professor francês Patrick Chabal, catedrático de Estudos Africanos Lusófonos do King's College, na Universidade de Londres. Transcrevi só esta parte da dita entrevista, pois focava directamente o país da marrabenta, e a possível vitória da FRELIMO nas eleições. Vitória essa que, no entender deste catedrático, constitui uma espécie de mal menor para a comunidade internacional.

"Se olharmos para o que se passou em Moçambique, vemos que não é o caso. Antes das eleições, pensámos que a RENAMO, de quem toda a gente tinha uma impressão terrível das atrocidades cometidas, ia sofrer uma grande derrota. Porém, no dia das eleições, apercebemo-nos de que a RENAMO tinha um apoio popular enorme. E como no caso de Angola, podemos pensar que a UNITA tem uma grande quota-parte de responsabilidade pelo que se passou, mas se as eleições forem verdadeiramente livres, haverá um forte apoio à UNITA. Talvez ainda mais que em Moçambique [para a RENAMO], uma vez que a população do Centro [de Angola] é ainda mais importante. No caso de Angola, em 1991, a UNITA poderia ter vencido as eleições, se a política de Savimbi não tivesse feito perder votos ao partido.
Em Moçambique, quais os factores que poderão determinar se haverá ou não alternância política nas próximas eleições com a saída da FRELIMO do poder?
O que é potencialmente importante é o facto de [Joaquim] Chissano deixar a política e isso joga a favor da RENAMO, porque não sei se [o secretário-geral da FRELIMO, Armando] Guebuza terá o mesmo apoio. O problema é que a RENAMO não é um partido da oposição politicamente muito sério. E [o líder Afonso] Dhlakama não é muito credível. A RENAMO não trabalha muito para atacar a política do Governo da FRELIMO. Não temos a certeza que a RENAMO acredite que pode ganhar. É esse o problema. O partido não se coloca verdadeiramente na posição de alternante. Isso pode jogar a seu desfavor. Mas têm um grande apoio popular.
Qual o cenário desejado e a ser apoiado pela comunidade internacional?
A comunidade internacional é totalmente ambígua. Por um lado, quer eleições democráticas porque isso corresponde à sua ideologia oficial. Por outro, prefere ter que lidar com aqueles que conhece, ou seja, a FRELIMO, em vez de ter de fazer face a um outro governo, que seria uma incógnita total."

1 Comments:

Blogger Silvenius said...

A ideia de que a comunidade internacional "prefere ter que lidar com aqueles que conhece" parece de facto válida para ambos os países (vejam-se, do outro lado político, as opiniões de Carlos Pacheco sobre o caso angolano). Obrigado pela referência à entrevista!

2:53 PM  

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